Nota técnica: O caráter estratégico do Agente Comunitário de Saúde na APS integral
PDF

Palavras-chave

Agente comunitário de saúde
Atenção primária à saúde

Como Citar

Fonseca, A. F., & Morosini, M. V. (2021). Nota técnica: O caráter estratégico do Agente Comunitário de Saúde na APS integral. APS EM REVISTA, 3(3), 210–223. https://doi.org/10.14295/aps.v3i3.218

Resumo

Sumário Executivo

Em diferentes países, o trabalhador comunitário de saúde se institui tendo como principal papel viabilizar o acesso a ações de saúde. Outra ideia bastante associada a esse trabalhador é a de tradutor, atuando no duplo sentido do conhecimento técnico e das práticas sanitárias para grupos específicos ou às chamadas comunidades, das quais ele mesmo é um membro; e das particularidades culturais e sociais desses mesmos grupos para os serviços e outros profissionais de saúde.

Seu trabalho é dimensionado em função das concepções de saúde, do modelo de atenção e do projeto de sistema de saúde que efetivamente se implantam em cada realidade nacional, em cada conjuntura. No Brasil, a institucionalização do agente comunitário de saúde (ACS) no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) está também relacionada ao processo de ampliação do acesso e à promoção da qualidade na Atenção Primária à Saúde (APS). Transitou de um momento de maior seletividade e focalização, com ações especificamente dirigidas à melhoria de alguns indicadores de saúde e a grupos em situação de pobreza, para um momento posterior, de estruturação de um novo modelo de atenção que se articula incorporando a concepção de determinação social do processo saúde-doença e se organiza e difunde com base na Estratégia Saúde da Família (ESF).

Sua profissionalização tem características pouco consolidadas – propostas de formação e atribuições sujeitas a constantes alterações – o que contribui para que o ACS seja um marcador sensível do sentido que as políticas de saúde assumem no contexto nacional. Em outras palavras, é possível dizer que os ACS expressam mais intensa e rapidamente as tendências que se imprimem ao SUS. É portador das expectativas de um SUS democrático, participativo, integral e universal e de uma grande identificação com a população que atende. Talvez por isso, mesmo em uma conjuntura de poucos recursos e bastante sobrecarga de trabalho, como a pandemia de Covid-19, tem conseguido sustentar práticas de criatividade e resistência produzidas no cotidiano e a partir das relações que mantém no território em que vive e atua.

A partir de dados de pesquisa e depoimentos disponibilizados no contexto da pandemia, foi possível identificar ações dos ACS, tanto em resposta aos novos desafios enfrentados como para dar continuidade à atenção à saúde das pessoas assistidas. Nós as agrupamos em linhas de atuação que se apresentam no Quadro 1. São elas o acolhimento aos usuários nas unidades de saúde; vigilância comunitária ativa – monitoramento de casos, contatos e suspeitos de COVID-19; apoio à campanha de vacinação contra COVID-19; continuidade do cuidado aos usuários; e articulação e apoio aos movimentos sociais comunitários. Essas ações mobilizam saberes e modos de atuação que os ACS têm desenvolvido e abrangem atividades artísticas, comunicativas com base na educação popular, de mobilização social e integração com movimentos solidários nas comunidades (Rede APS, 2021).

 

 

Quadro 1 - Linhas de ação e atividades dos ACS durante a pandemia

Linhas de ação

Atividades

Acolhimento aos usuários nas unidades de saúde

Orientação sobre os fluxos de sintomáticos respiratórios e não-sintomáticos. Orientação aos usuários sobre meios de prevenção à COVID-19 e sobre as formas de realização de isolamento nas moradias.

Vigilância comunitária ativa - monitoramento de casos, contatos e suspeitos de COVID-19

Visitas peridomiciliares, ligações telefônicas e trocas de mensagens por aplicativo com os usuários.

 

Apoio à campanha de vacinação contra COVID-19

Registro dos dados das pessoas vacinadas nos postos de vacinação

Identificação de pessoas com dificuldade de locomoção, idosos e acamados e articulação de estratégias de vacinação em domicílio.

Ações para mobilização dos usuários para comparecer à 1ª e 2ª dose vacinação – ligações telefônicas, envio de mensagens por aplicativo, visitas peridomiciliares, inserções em programas das rádios comunitárias etc.

Continuidade do cuidado aos usuários

Visitas peridomiciliares, ligações telefônicas e trocas e mensagem por aplicativo com os usuários, inserções em programas de rádio comunitária, elaboração de cartazes afixados nas unidades etc

Articulação e apoio aos movimentos sociais comunitários

 

 

Participação na elaboração de ações comunitárias;

Identificação de sujeitos em maior risco social e definição de formas de comunicação.

Engajamento e atuação na realização de ações de apoio social por meio da distribuição de alimentos, materiais de higiene, máscaras

 

Ao mesmo tempo, sua realidade expõe as contradições de um sistema que ampliou acesso à custa da precarização do trabalho. Ainda hoje são praticadas formas de contratação sem os devidos direitos ou com direitos insuficientes, às quais se somam a sobrecarga de atividades, o significativo aumento de tarefas administrativas, o sofrimento psíquico e o desgaste físico. (Santos, Souza e Freitas, 2019; Morosini, 2018; Riquinho et al, 2018)

Num contexto de crescentes desafios trazidos pelas mudanças nas políticas voltadas para a Atenção Básica (AB)[1] e pelos efeitos da pandemia de Covid-19, faz-se especialmente importante refletir sobre as questões que se apresentam para o trabalho do ACS. Essa reflexão se coloca tanto pela importância estratégica dos ACS para a consolidação da ESF, na perspectiva da APS integral, como pela possibilidade de se compreender melhor como esses desafios se materializam na prática do trabalho na AB.

 

[1] As expressões Atenção Primária à Saúde e Atenção Básica à Saúde são utilizadas aqui de modo diferenciado. A primeira refere-se ao campo teórico-metodológico ou à nomenclatura internacional. A segunda designa o desenvolvimento da Atenção Primária à Saúde no contexto do SUS, em especial às políticas que organizam este âmbito de atenção no Brasil.

https://doi.org/10.14295/aps.v3i3.218
PDF

Referências

ANTUNES, R. Capitalismo de plataforma e desantropomorfização do trabalho. In: GROHMANN, R. Os laboratórios do trabalho digital: entrevistas. São Paulo: Boitempo, 2021, p.33-38.

BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria nº 2.436, de 21 de setembro de 2017. Aprova a Política Nacional de Atenção Básica, estabelecendo a revisão de diretrizes para a organização da Atenção Básica, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Diário Oficial da União 2017; 22 set.

BRASIL. Medida Provisória nº 890, de 1º de agosto de 2019. Institui o Programa Médicos pelo Brasil. Diário Oficial da União 2019; 1º ago.

BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria nº 2.979, de 12 de novembro de 2019. Institui o Programa Previne Brasil. Diário Oficial da União 2019; 13 nov.

BRASIL. Ministério da Saúde. Consulta Pública da Política Nacional de Saúde Suplementar para o Enfrentamento da Covid-19. Disponível em: <https://www.gov.br/participamaisbrasil/pnss-covid-19> Acesso em: 8 ago. 2021.

BRASIL. Ministério da Saúde. Carteira de Serviços da Atenção Primária à Saúde (CaSAPS). Versão profissionais de saúde e gestores - completa. Brasília: 2020. http://189.28.128.100/dab/docs/portaldab/documentos/casaps_versao_profissionais_saude_gestores_completa.pdf (acessado em 15/Fev/2020).

FONSECA, A. F.; MENDONÇA, M. H. M. Parcelarização e simplificação do trabalho o Agente Comunitário de Saúde. Rev. Lat. Estudios del Trab., 2015, 20:29-57. https://www.arca.fiocruz.br/handle/icict/25376 (acessado em 2/ago/2021).

GIOVANELLA, Lígia et al. Médicos pelo Brasil: caminho para a privatização da atenção primária à saúde no Sistema Único de Saúde?. Cad. Saúde Pública, 35:10 e00178619 https://doi.org/10.1590/0102-311X00178619 (acessado em 26/jul/2021)

GONDIM G. M. M.; MONKEN, M. O uso do território na atenção primária à saúde. In: MENDONÇA, M. H. M.; MATTA, G. C.;

GONDIM, R.; GIOVANELLA, L. (organizadores). Atenção Primária à Saúde no Brasil: conceitos, prática e pesquisa. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2018. p. 143-75.

GROHMANN, R. Introdução. Trabalho em plataformas é laboratório de luta de classes. In: GROHMANN, R. Os laboratórios do trabalho digital: entrevistas. São Paulo: Boitempo, 2021, p.13-23.

HIRATA H. Subjetividade e sexualidade no trabalho de cuidado. Cad. Pagu, 46:151-63. https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/cadpagu/article/view/8645399 (acessado em 12/jul/2021)

KATZ, N. et al. Acesso e regulação ao cuidado especializado no Rio Grande do Sul: a estratégia RegulaSUS do TelessaúdeRS-

UFRGS. Ciênc Saúde Coletiva. 2020, 25:1389-1 < https://doi.org/10.1590/1413-81232020254.28942019> (acessado em 10/ago/2021)

LIU, W. Abolir o Vale do Silício e Organizar os Trabalhadores. In: GROHMANN, R. Os laboratórios do trabalho digital: entrevistas. São Paulo: Boitempo, 2021, p.193-195.

LOTTA, G.; FERNANDEZ, M.; CORRÊA, M. The vulnerabilities of the Brazilian health workforce during health emergencies: Analysing personal feelings, access to resources and work dynamics during the COVID-19 pandemic. Int J Health Plann Manage. 2021 36(S1):42-57. DOI: 10.1002/hpm.3117

MOROSINI, M. V. G. C. Transformações no trabalho dos agentes comunitários de saúde nos anos 1990-2016: a precarização para além dos vínculos [tese de doutorado]. Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Centro de Educação e Humanidades, 2018. < https://www.arca.fiocruz.br/handle/icict/33269> . (acessado em 10/ago/2021)

MOROSINI, M. V. G. C.; FONSECA, A. F. Revisão da Política Nacional de Atenção Básica numa hora dessas? Cad. Saúde Pública, 2017; v. 33 n. 1, p. 1-4.

MOROSINI, M. V. G. C.; FONSECA, A. F.; BAPTISTA, T. W. F. Previne Brasil, Agência de Desenvolvimento da Atenção Primária e Carteira de Serviços: radicalização da política de privatização da atenção básica? Cad. Saúde Pública, 36, 9: 1-20, 2020.<https://www.arca.fiocruz.br/handle/icict/43663>. (acessado em 10/ago/2021)

NOGUEIRA, M. L. et al. 1o. Boletim da Pesquisa "Monitoramento da saúde dos ACS em tempos de Covid-19. Rio de Janeiro: 72 p. https://www.arca.fiocruz.br/handle/icict/42709 (acessado em 12/jul/ 2021)

Rede de Pesquisa em Atenção Primária à Saúde da ABRASCO. A APS não pode parar! continuidade do cuidado durante e após a pandemia. Seminário 2021, 10 ago 2021. <https://www.youtube.com/watch?v=IYq3gbnUgpM>

RIQUINHO, D. L. et al. O cotidiano de trabalho do agente comunitário de saúde: entre a dificuldade e a potência. Trab. Educ. saúde, 2018, 16:163-182. <https://doi.org/10.1590/1981-7746-sol00086>. (acessado 4/ag0/2021)

SANTOS, L. T.; SOUZA, F. O.; FREITAS, P. S. P. Rev. Efeitos do trabalho sobre o adoecimento entre agentes comunitários de saúde - uma revisão de literatura. Aten. Saúde, jul./set., 2019, 17:105-113.

SILVA, R. S. et al. O Papel da Telessaúde na Pandemia Covid-19: Uma Experiência Brasileira. Ciec. Saúde Coletiva, 2021, 26: 2149-2157. < https://doi.org/10.1590/1413-81232021266.39662020> (acessado 4/ago/2021

Creative Commons License

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International License.

Copyright (c) 2021 APS EM REVISTA

Downloads

Não há dados estatísticos.